Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

«SEM REDE»

 

 

  

Ultimamente vejo reforçado em mim um gosto que já vem detrás, que consiste em assistir a cursos, seminários e afins que, à partida, não estão directamente relacionados com a minha formação base nem com o exercício da minha actividade profissional. Mas isto é aparente, depois tudo sai maior. Vem isto a  propósito porque ontem estive no Seminário Internacional Partilha do Património Arquivístico Comum . E como me tem acontecido em outras iniciativas semelhantes da Direcção Geral de Arquivos (de quem por estas e outras intervenções começo a ser fã incondicional) são ditas coisas  que, não sendo especialista, me fascinam, por vezes   por razões laterais, ou porque as cruzo com  questões mais amplas, e com aquilo  que é suposto ser  o meu trabalho. Do que ontem foi dito, por exemplo:

 

- O representante de Timor Leste apontava  que o seu problema prioritário tinha a ver com o espaço onde guardar os documentos e  livrá-los dos ratos. Todos os dias a tarefa é ir ver se os roedores andam por lá e depois procurar gatos para os caçarem;

 

- Outro, o de São Tomé  e Principe, depois de muito se ter falado nas grandes possibilidades tecnológicas, dizia que eles apenas tinham um computador, o mesmo desde há dez anos;

 

- Em Timor Leste há também o problema da língua, os técnicos não sabem português suficiente que lhes permita ler os documentos;

 

- E uma nova palavra: oportunizar;

 

- E falou-se de dinossauros, e da importância de se preservar a MEMÓRIA  e de REDES. O cerne do labor daqueles profissionais.

  

 Nestas ocasiões não costumo dispersar-me, concentro-me naquelas temáticas, entro naquelas atmosferas, e a elas me dedico «de corpo e alma». Ontem, porém, não foi assim. Nos intervalos   ia lendo o livro QUATRO ENSAIOS À BOCA DE CENA - por uma política teatral e da programação (depois de já se ter verificado em Lisboa agora vai ser lançado noutros sítios) . E, de repente, chego à página onde um dos autores, Américo Rodrigues, escreve:

 

«Portugal viu-se, de repente, numa situação nova, para a qual não foi preparado. Espalhados por todo o país, florescem como cogumelos (venenosos?) Teatros e Cine-Teatros de média e grande dimensão. Em todas as capitais de distrito do país, mas também noutras cidades dinâmicas, foram erguidos Teatros, alguns dos quais belíssimas peças de arquitectura. Houve, pois, uma enorme contribuição para o desenvolvimento da ... construção civil. Obras de cimento, ferro, madeira e vidro, erigidas por todo o país, como se tivessemos entrado entretanto de repente numa era de modernidade. Como se o país, assim de supetão, se tivesse transformado radicalmente, tendo passado a acreditar na urgência da descentralização cultural. No entanto é apenas de construção que falamos. De erecção! Apesar do Ministério da Cultura se ter apressado a batizar tal afã construtor como «Rede Nacional de Teatros e Cine-Teatros», o que encontramos são obras físicas disseminadas por todo o País. O nome "Rede", no entanto, não corresponde a nenhuma prática e, muito menos a nenhuma política. A ideia inicial, de Manuel Maria Carrilho, era seguramente, a de criar uma verdadeira  Rede. No entanto, com a sua saída do Governo esse projecto terá sido abandonado. O que vemos são dezenas de obras que alteram a paisagem do país, mas que não funcionam em rede (....). Porém, os políticos  e os jornalistas continuam a falar da «Rede Nacional», como se ela existisse, num exercício que chega a raiar o escândalo. Ou seja, fingem que a "Rede" existe e isso parece bastar-lhes. O resto, a que chamamos realidade, não parece interessar-lhes. Diga-se desde já: a "Rede Nacional de Teatros e Cineteatros" não existe. (...) 

 

Estava no ambiente ideal para me lembrar do seguinte:

 

- «Desde sempre» que o Estado tem gasto verbas  em Teatros, Cineteatros e demais salas de espectáculos;

 

- Para se pensar a REDE, que de facto não existe, tem de se ir ao passado, e verificar, por exemplo,  que no primeiro Governo de António Guterres se lançou um Programa de Adpatação e Instalaçõa de Recintos Culturais - Despacho Normativo n.º 46/96 de 5 de Novembro - da responsabilidade de Rui Vieira Nery,  onde o PROJECTO CULTURAL E ARTÍSTICO era a razão de ser do equipamento físico;

 

- Em paralelo, já se estava a gizar o desenvolvimento do Programa sob o título REDE NACIONAL DE SALAS - como aparece no PIDDAC de 1997.

 

- Com a saída do Secretário de Estado, revogou-se aquele diploma, e lançou-se a que veio a ser designada por Rede de Teatros e Cineteatros de Manuel Maria Carrilho, que, no fundo, não era a negação daquele PROGRAMA, partilhava-se dos mesmos princípios, talvez num aparente outro figurino,  mas para a qual nunca foi publicada legislação que substituisse a revogada;

 

 - Entretanto o POC - Programa Operacional da Cultura -  tem a Criação de uma rede fundamental de recintos culturais, que, bem vistas as coisas, nunca se percebeu como se articulava com o passado, e como se projectava no futuro. E de que Rede se estava a falar.

 

- Por esta altura o Ministro também saíu.

 

E, como grande sobra, temos agora a realidade descrita por Américo Rodrigues.

 

Chegados aqui, a pergunta: como é que no QREN - Quadro de referência estratégico nacional - se está a equacionar tudo isto?

 

E lembrei-me também de outro detalhe: lá pelos fins dos anos noventa/ princípios deste século foi publicado um Trabalho no jornal Expresso que, se a memória não me falha, tinha como título «SEM REDE», onde se denunciava precisamente o que aqui estamos a visar. 

  

publicado por MAF às 23:34
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