Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

VIDRO

Fizeram-nos chegar a intervenção do Madeira Luiz no workshop que se realizou em Oliveira de Azemeis, há poucas semanas, sobre o Património Vidreiro. Vale a pena saber o que ele disse. Uma lição.

 

 

Finalmente!
 
Para quem como eu, que há cerca de 40 anos colecciona esse fabuloso material que é o vidro e, há 30, pelo menos, descobriu que, entre as suas várias utilidades, uma delas é a de poder ser um documento, o trabalho de prospecção que finalmente se produziu na Quinta do Côvo, constitui o começo de uma etapa decisiva para o conhecimento do património vidreiro deste País.
Os habitantes de Oliveira de Azeméis saberão, naturalmente, que, há cerca de 450 anos, um vidreiro espanhol, Pero Moreno, instalou um forno de vidro no Côvo e que os seus herdeiros, que ainda ali vivem, continuaram a produção até aos anos 20 do século passado.
E também que uma outra família (a dos Mateiros), conseguiu reunir, nos anos 30, várias fábricas que no final do séc. XIX e princípios do séc. XX foram aparecendo na Vila, naquilo que passou a chamar-se Centro Vidreiro do Norte de Portugal, que laborou até á pouco tempo.
Esta simples história que se conta em algumas linhas e que toda a gente conhece em Oliveira de Azeméis, é um motivo de espanto quando contada em qualquer outra lugar de Portugal (com excepção para as pessoas que aqui se relacionam, de qualquer modo, com o vidro) e com maior espanto ainda, se tal relato se fizer a um especialista do vidro em qualquer parte do Mundo.
O que quer dizer que Oliveira de Azeméis detém um património histórico espantoso que não está, até agora, investido. Como um diamante que pode passar despercebido enquanto se conserva em estado bruto.
            Começámos agora a lapida-lo!
            Num País onde os catálogos de peças, os arquivos, as máquinas e utensílios ou os edifícios industriais desapareceram e continuam a desaparecer diariamente, só circunstâncias extraordinárias, como a manutenção da mesma família no Côvo durante séculos ou a excepcionalidade cultural de um grupo de irmãos ingleses (os Stephens) na Marinha Grande, puderam garantir a memória destes centros vidreiros emblemáticos.
            E se, no que diz respeito ao Côvo, se começou agora a tirar partido dessa circunstância excepcional, no caso do Centro Vidreiro a circunstância é outra. É a de se poder ali, ainda, inverter a tendência para esse abandono dos elementos essenciais para a memória industrial, através de uma providência cautelar, ou outra aparentada, assumida pela Câmara Municipal, eventualmente apoiada pela Universidade de Aveiro e por outras instituições da Administração Central.
            A partir daí será então possível desenvolver um projecto ambicioso que coloque Oliveira de Azeméis no lugar que lhe pertence, como o mais antigo e duradouro centro vidreiro conhecido em Portugal, praticamente coevo da fase de esplendor do vidro de Veneza, embora, tanto quanto se sabe, com outra estratégia de produção.
            Uma operação deste tipo exige recursos humanos e financeiros avultados, mas existem hoje empresas especializadas que podem assessorar os seus promotores e colaborar com eles na captação dos apoios financeiros nacionais e, sobretudo, internacionais, que o “diamante” justifica.
            A questão fundamental situa-se pois nos objectivos e na sustentabilidade das resposta aos seus desafios, e passa pela consciência, já hoje relativamente disseminada, de que só há desenvolvimento com populações, agentes culturais e económicos empenhados, sendo que esse empenhamento se baseia na necessidade e na auto-estima.
            Podíamos aliás imaginar, não tanto uma história, mas um conjunto de causas hipotéticas, quer de necessidade quer de empenhamentos, que poderiam ter configurado a evolução destes 450 anos de produção vidreira.
            Em primeiro lugar, as que rodearam a própria instalação de Pero Moreno no Côvo. Se algumas razões que se puseram ao vidreiro são óbvias (a vasta mata e a existência de um veio de água que resolvia algumas necessidades energéticas, o acesso a uma jazida de quartzo e outra de caulinos para a produção do vidro e dos potes), já são menos claras as do Senhor da Feira para a concessão do arrendamento perpétuo, mas parece interessante ter em conta o fascínio que nessa época exercem, sobre a aristocracia portuguesa, os caríssimos vidros de Veneza e o facto de fazer parte do foro “uma meia dúzia de vidros bons e de receber”.
            Mais tarde, nos finais do século XVIII, um novo jogo entre necessidade (ou desejo) e empenhamento, com as tentativas de Inácio de Castro Lemos e Menezes de reformular a estratégia de produção do Côvo (inclusive com a produção de vidros cristalinos) eventualmente pressionado pela concorrência da Marinha Grande.
            E por fim, e no virar do século XIX para o século XX os últimos esforços para adaptação ás novas condições de concorrência com as outras fábricas entretanto implantadas na Vila.
            A resposta a essas novas condições vem agora de outro lado e com contornos pouco conhecidos, mas com algumas estratégias empresariais bem claras. Ramiro e Júlio Mateiro lideram um processo de concentração fabril que, em 1932, abrange praticamente todas as unidades vidreiras da região numa só instituição (O Centro Vidreiro do Norte de Portugal) fortemente dirigida para o mercado colonial e com um estilo de gestão, que tanto dá ênfase de missão cultural a essa relação, como se empenha num programa de acção social junto dos trabalhadores.
            Mas uma vez mais, e neste caso a última (ou talvez não) as circunstâncias desencadeiam um novo confronto entre necessidade e empenhamento na industria vidreira de Oliveira de Azeméis. Perante o declínio de um projecto tão específico como o do Centro Vidreiro, foi ainda gizada, no final do milénio, uma reestruturação que tentava adaptar-se às mudanças sociais profundas de 70 anos. Dessa tentativa, ficaram, pelo menos, um registo vídeo do funcionamento da fábrica, produzido pela Universidade de Aveiro e um levantamento incompleto do património material ali existente, realizado por alunos da mesma universidade.
            A partir daqui, e apesar dos múltiplos aspectos que seria interessante arrolar, o que importa são as perspectivas de futuro baseadas num entendimento rigoroso e critico, deste riquíssimo passado.
            A profunda relação de Oliveira de Azeméis com o vidro, que de certo modo a criou e desenvolveu, e com a industria em geral, de que é exemplo a sua inserção no surto empresarial dos finais do séc. XIX (e que tem no caminho de ferro a mais evidente prova), garantem a viabilidade desse futuro que, aliás, já começou.
            A transferência de mão-de-obra vidreira para a Industria de moldes de plástico, ou as potencialidades empresariais do uso dos novos materiais a que se referirá a Prof.ª Helena Fernandes, são provas disso.
            E por fim a “Galinha dos Ovos de Ouro” que é o turismo, na medida em que os seus principais recursos já existem e são o património cultural. A questão é sermos capazes de o conservar e de lhe dar visibilidade adequada. A região de Aveiro está “madura” para um turismo baseado na arqueologia industrial e nas suas componentes: Vestígios fabris, Caminhos-de-ferro, Arquitectura de transição do século XIX para séc. XX (vulgo Arte Nova) ou, por arrastamento, também a Contemporânea.
            De novo, uma necessidade que desafia a auto-estima e empenhamento. A chave é o Planeamento Estratégico e Participado, nesta área.
 
 
Francisco Madeira Luís
 

 

publicado por MAF às 22:20
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5 comentários:
De maria judite matias a 1 de Janeiro de 2010 às 19:29
Gostaria de ser esclarecida quanto ao nome da Fábrica do Côjo e que o Madeira Luís denomina Fábrica do Côvo.
Isto por que o livro TESTEMUNHO DAS PAREDES - ensaios de azulejaria - da autoria de Vi'tor Sousa Lopes, na rubrica "Oficinas industrializadas de Aveiro" diz-nos : "Enquadrado no espírito de fomento industrial preconizado pelo Marquês de Pombal, surge em 1775 a Fábrica do Côjo, fundada por João Rodrigues Branco.Nesta fábrica segundo Marques Gomes, fabricou-se durante anos louça que podia bem competir com os produtos congéneres saídos das fábricas de Coimbra e Porto. Segundo o mesmo estudioso, nesta fábrica produziram-se vários painéis de azulejos que utilizavam predominantemente as cores roxas e azul, encontrando-se alguns deles a decorar o côro da I greja do Carmo em Aveiro.....................
década de 70, data do seu encerramento, ..........Para ocupar o lugar deixado vago pelo desaparecimento da Fábrica do Côjo, surge em 1882, a F'abrica Cerâmica da Fonte Nova, fundada por António Carlos da Silva Melo Guimarães......"

Apenas Isto:
Côjo ou Côvo
De Madeira Luis a 22 de Janeiro de 2010 às 15:56
Embora tardio aqui vai o esclarecimento pedido.
Normalmente uso o termo " fábrica" num sentido abrangente de estrutura de produção de bens materiais.
No que respeita a Côjo ou Côvo a resposta é Côjo e Côvo.
A Fábrica do Côjo, como citas no pedido de esclarecimento, era uma Fábrica de cerâmica existente nas margens do canal com o mesmo nome, dentro do perímetro da cidade de Aveiro.
Fábrica do Covo é a expressão geralmente utilizada para referir o conjunto de estruturas de produção vidreira existentes na Quinta do Covo, situada nos limites urbanos da cidade de Olveira de Azeméis, e que foi arrendada perpétuamente por um mestre vidreiro no século XIV e se manteve em laboração até ao século XX.


De maria judite matias a 22 de Janeiro de 2010 às 17:32
Olá Madeira,
Como diz o povo na seu saber ancestral," vale mais tarde que nunca "!
obrigada pelo esclarecimento que me deste e a todos os leitores deste blog.
Adeus e até sempre.
De Luis Castela a 27 de Setembro de 2010 às 22:54
como "mais vale tarde que nunca" um grande abraço do Luis castela ue, por mero acaso vos encontrou numa discussão interessante, o Madeira, a Judite e mesmo a Maria Augusta que no3bom velho tempo trabalhou na SEC!
De MAF a 27 de Setembro de 2010 às 23:01

Vou já dar conhecimento deste encontro virtual ao Madeira e à Judite.
Um abraço. MAugusta

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