Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

O TEMPO esse grande escultor

 

Recebi de uma amiga do Grupo Versalhes (bem vistas as coisas ela também faz parte do Grupo só que Fernando Pessoa em quem ela é especialista  não lhe dá tempo para aparecer) com a frase  « Reencaminho, nataliciamente, este pranto rezado do escultor»,  um excerto de GHERARDO PERINI  do livro de Marguerite Yourcenar «O TEMPO esse grande escultor», da Difel (a minha edição é de 1984 e a a capa é diferente da actual). Eu gosto das capas dos livros, e gosto muito da minha. O e-mail levou-me  a procurar o livro,  a ler toda a parte onde se encontra «o pranto» - II Sistina - ,  a debruçar-me sobre o que tinha assinalado, e a decidir divulgar aqui o recebido e o livro.

 

Gherardo Perini

 «Não irei mais longe, Gherardo.
Não te acompanho mais porque o trabalho urge
e eu sou um homem velho. Sou um homem velho, Gherardo.
Às vezes, quando te entregas mais à ternura,
chegas a chamar-me teu pai. Mas eu não tenho filhos.
Nunca encontrei mulher tão bela como as minhas figuras de pedra,
mulher que ficasse horas imóvel sem falar,
como coisa necessária que não precisa de agir para ser,
e nos faz esquecer que o tempo passa porque está sempre presente.
Mulher que se deixe olhar sem sorrir nem corar
porque compreendeu que a beleza é qualquer coisa de grave.
As mulheres de pedra são mais castas que as outras,
e mais fiéis, porém, são estéreis.
Não há fenda por onde se possa introduzir nelas o prazer,
a morte, ou a semente de uma criança,
e por isso elas são menos frágeis.
Por vezes quebram-se e em cada pedaço de mármore
fica contida a sua beleza inteira, como Deus
que está em todas as coisas,
mas nada de estranho entra nelas que dilate o seu coração.
Os seres imperfeitos agitam-se e acasalam-se para se completarem,
mas as coisas só belas são solitárias como a dor humana.
Gherardo, não tenho filhos.
Eu bem sei que a maioria dos homens não tem propriamente um filho:
têm Tito, ou Caio, ou Pedro, e não é a mesma alegria.
Se eu tivesse um filho,
ele não se havia de parecer com a imagem que eu dele formara
antes de existir. Assim também as estátuas que faço
são diferentes daquelas que comecei por sonhar.
Mas Deus permite-se ser conscientemente criador.
Se fosses meu filho, Gherardo, eu não te amaria mais,
mas não teria que perguntar-me porquê.
Toda a minha vida procurei respostas a perguntas
que talvez não tenham resposta e perscrutei o mármore
como se a verdade se encontrasse no coração das pedras,
e espalhei as cores para pintar muralhas
como se se tratasse de fixar acordes sobre um enorme silêncio.
Tudo se cala, sabes, até a nossa alma —
ou então somos nós que não ouvimos.
Assim, tu partes.
Na minha idade já não se dá importância a uma separação,
mesmo que definitiva. Eu bem sei que os seres que amamos e que nos amam mais
se vão separando insensivelmente de nós a cada momento que passa.
É também deste modo que se vão separando de si próprios.
Estás sentado sobre essa pedra e julgas-te ainda aí,
mas o teu ser, voltado para o futuro, não adere mais ao que foi a tua vida,
e a tua ausência já começou. É certo que compreendo
que tudo isto é ilusão, como o resto, e que o futuro não existe.
Os homens que inventaram o tempo,
inventaram por contraste a eternidade, mas a negação do tempo
é tão vã como ele próprio. Não há nem passado nem futuro
mas apenas uma série de presentes sucessivos,
um caminho perpetuamente destruído e continuado
onde todos vamos avançando.
Gherardo, não te enganes sobre as minhas lágrimas:
vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los.
Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe,
enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela.
Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo,
assim tu também não és mais para mim
do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver.
Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo.
Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.»
 
Marguerite Yourcenar
“O tempo esse grande escultor”
trad. helena vaz da silva
  

Saiba mais sobre o livro aqui

  

E olhei para os meus sublinhados, por exemplo:

 

«Mas a imagem do pássaro vindo não se sabe donde e ido não se sabe para onde permanece um bom símbolo da inexplicável e curta passagem do homem sobre a Terra. Podíamos ir mais longe e fazer da sala assolada pela neve e pelo vento, iluminada?, por um tempo?, no meio do triste e enovoado Inverno, um outro e também pungente símbolo. (...)»

 «De todas as modificações causadas pelo tempo, nenhuma afecta tanto as estátuas como a alteração do gosto daqueles que as admiram».

 «A arte árabe de Granada, mais tardia, mais feminina, dirige-se ao espírito pelos sentidos. (...)  Esta perfeição quase vegetal não depende da unidade de estilo nem de autenticidade de pormenor e suporta com deliciosa docilidade todas as injúrias: o Généralife de revestiments envelhecidos, pavilhões reconstruídos e pequenos bosques com retoques de jardineiros modernos continua sendo   o que o seu construtor árabe desejou que ele fosse: o paraíso das meditações serenas e das alegrias simples. (...)»

 Lembro-me que fui a Granada depois de ter lido «O TEMPO esse grande escultor».

Mas eu não podia acabar sem dizer que o «meu livro»  da autora é  «A OBRA AO NEGRO» - aliás quando me pedem para assinalar um livro quase sempre me lembro deste -  e que o seu «O GOLPE DE MISERICÓRDIA»  deve ter sido o livro que mais vezes li e que mais vezes ofereci. Claro que há «Memórias de Adriano».

publicado por MAF às 20:26
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1 comentário:
De maria judite matias a 31 de Dezembro de 2009 às 12:47
EM MEMÓRIA DE DIOTIMA:
JEANNE DE VIETINGHOFF

"Tudo o que vejo parece-me um reflexo, tudo o que ouço, um eco distante, e a minha alma procura a fonte maravilhosa, pois tem sede de água pura.
Passam os séculos e gasta-se o mundo, mas a minha alma permanece jovem; vigia entre as estrelas, na noite dos tempos.
Não julgues. A vida é um mistério, cada um obedece a leis diferentes. Conheces porventura a força das coisas que os conduziram, os sofrimentos e os desejos que cavaram o seu caminho? Surpreendeste por ventura a voz da sua consciência a revelar-lhes em voz baixa o segredo do seu destino? Não julgues; olha o lago puro e a água tranquila onde vêm quebrar-se as mil vagas que varrem o universo...É preciso que aconteça tudo aquilo que vês. Todas as ondas do oceano são precisas para levar ao porto o navio da verdade.

Parece-me que se a morte me viesse surpreender antes de eu ter podido mergulhar por completo no rio da vida, havia de dizer-lhe: vai-te embora, ainda não soou a hora...O repouso do teu grande céu azul seria para mim pesado, se me restasse ainda alguma força por esgotar, e a tua felicidade eterna teria um sabor de saudade, se tivesse ficado na terra uma flor de que eu não conhecesse o perfume."
" Sofremos (dizia ela ainda), sofremos de cada vez que duvidamos de alguém ou de qualquer coisa, mas o nosso sofrimento transforma-se em alegria logo que aprendemos, nessa pessoa ou nessa coisa, a beleza imortal que nos fazia amá-la"


Marguerite Yourcenar

O TEMPO
Esse Grande escultor
DIFEL - 1983


Agora para a Teresa:

Os seres, objectos ou figuras, a que chamamos exteriores, manifestam-se à nossa sensibilidade, primeiro, como formas; segundo, como grandezas; terceiro, como em movimento ou em repouso. Assim os concebemos, porque os sentimos, a todos - não muito o menos pequeno que o muito grande, tanto a árvore como sua sombra

De um manuscrito de 1913-1914 (?)

Fernando Pessoa

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