Terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

O ANDRÉ E O RATO

 

O André a fazer  pagamentos à equipa local que trabalha com ele

 

O ANDRÉ está a fazer um doutoramento e neste momento encontra-se na Guiné em trabalho de campo. Mandou-nos a crónica que abaixo publicamos que é muito familiar a quem já andou por alguns países de África - pela «áfrica negra».  Eu que estive por lá - em tempo de fome  e guerra -, a primeira coisa que assinalei: «tem água», que bom. Lembro-me que na década de 80 em Maputo estive semanas a fio sem água num Hotel. Um copo de água era a maior riqueza. E conseguir lavar o cabelo o maior luxo. Mas não troco aqueles tempos por nada, e ao André, tenho a certeza,  vai acontecer o mesmo. O mundo é muito maior do que o Ocidente civilizado. Vamos à crónica, à espera de novos capítulos.  

 

[PRÓLOGO: Moro em Madina de Cantanhez, na região de Tombali, numa penÍnsula que é a penultima península da Guiné-Bissau, antes de se chegar à Guiné-Conacri. A casa é pertença da Associação de mulheres da aldeia, que a decidiram intitular de Ala cabum (Alá é grande), como para referir uma verdade que deve ser repetida para não cair no esquecimento e eliminar quaisquer dúvidas que possam surgir no seio de alguma mulher mais subversiva. Mas escrevo, não para comentar estes factos da vida, do dia a dia de quem sofre e consegue ainda sorrir, os detalhes mais ou menos dramáticos de alguma vida pessoal particular, nem para relatar nenhuma estória por mim vivida neste espaço-tempo peculiar. Escrevo para falar da minha casa de banho, a casa de banho das mulheres de Madina, onde Ala Cabum.
Esta casa de banho é externa não o sendo. Faz parte de um anexo que partilha com a casa o telhado, mas que para lá se chegar implica passagem pela porta das traseiras, chegando-se a uma área fechada entre paredes que não atingem o tecto, sendo portanto bem arejada. Nessa área, em forma de corredor tranversal à casa, há duas portas, que abrem para duas divisões. Uma de tomar banho, com um ralo no chão para escoar a água, e outra com uma sanita e um lavatório. Deve ser acrescentado, para os mais distraídos em geografia, que nessas divisões não há luz eléctrica e que apesar de haver uma torneira no lavatório e um autoclismo por cima da sanita o acesso à água é feito da forma tradicional. De tempos a tempos mulheres idosas carregam em alguidares na cabeça, para gigantescos recipientes, água do poço que, com a ajuda de um púcaro de plástico, o utilizador faz chegar ao lavatório, ou a um balde para despejar na sanita ou ao seu corpo quando se lava. A partir de agora falarei apenas do que se passa na divisão que tem a sanita e chamar-lhe-ei de casa de banho (apesar de o banho se processar na divisão ao lado).]
Na minha casa de banho habita um escaravelho. Daqueles pretos enormes, com duas pintas amarelas na extremidade do abdómen que quando visto de costas fazem com que pareça uma volumosa aranha de grandes olhos ameaçadores, na obscuridade. Juntamente com este, a que carinhosamente apelidei de o escaravelho, vivem algumas aranhas, poucas pequeninas e uma outra enorme do tamanho da minha mão, à qual chamo de a aranha. Moram lá também duas marias cafés, um grilo e numerosas vespas que construiram as suas colmeias, com lama e cuspo na estrutura de madeira que sustenta o telhado de zinco.
A juntar a este festim artropologico, o mais civilizado dos ratos partilha comigo aquele espaço. Comecei por reparar, nos primeiros dias, num pequeno montículo, muito bem organizado de caganitas, no canto direito, ao fundo de quem entra, o canto que fica na junção da parede do lavatório (à direita de quem entra) com a da sanita (a do fundo). Com o passar dos dias esse montículo foi-se erguendo como pirâmide egípcia, meticulosamente construído com matéria própria pelo laborioso rato. Curiosamente, é enquanto cago que observo a cada dia o resultado da labuta intestinal do rato na noite anterior. Ainda não o conheci pessoalmente, mas é certamente um intelectual, pela forma com que geometricamente expele matéria pelo anús. Há como que um acordo de cavalheiros em que o rato caga organizadamente e eu permito a sua estadia clandestina na casa da qual eu pago a renda.
Nos últimos dias reparei que na piramide castanha algum bolor começava a aparecer, ameaça de instabilidade estrutural e talvez mesmo à saúde do rato defecador. Isto terá sido nos últimos quatro dias, em que a mancha apareceu e rapidamente se expandiu cavalgando por entre os tijolos da pirâmide. Houve uma tentativa do rato de lhe cagar em cima, para manter a aparência imaculada da construção, mas sem efeito. A dispersão do bolor foi amplamente mais rápida que a produção do rato.
Depois desta descrição, creio eu já o leitor preparado para o que eu vi hoje e que me fez e continua fazendo ponderar muito e escrever estas palavras, esta partilha que convosco faço. Pois, hoje de manhã, saído eu fresquinho da cama, pronto para a minha tradicional cagadela matinal, reparo que o bordo da sanita está sujo de terra. Pensando que teria chovido durante a noite, e por tal o adobe do bordo da janela teria respingado, retiro com o caneco um pouco de água do alguidar, preparado para limpar a terra. Ao aproximar-me da sanita surge a surpresa. Lá dentro, por cima do papel higienico da mijadela da noite anterior, magníficas, inteligentes e cultas azeitoninhas de cocó de rato animavam a de outra forma monótona visão amarelo-branca de mijo e papel higiénico. Não é que o sacana do rato agora caga na sanita!?
Concluí que não tinha chovido na noite anterior e que as manchas de terra da sanita, não eram senão as pegadas do nosso rato intelectual. Prossegui com a lavagem e comecei a profunda cogitação que me levou a escrever estas palavras, enquanto o escaravelho, lentíssimo, tentava abocanhar o grilo, entre as duas marias cafés, na parede diante de mim (a da entrada). O que levou o rato a cagar na sanita? Terá sido o cheiro do meu mijo que o atraiu e o fez sentir que ali era uma latrina e o fez ali cagar e muito provavelmente mijar? Será que me tem espiado e por imitação (inteligência que até hoje não atribuia a um rato) fez o que sempre me viu fazer quando cago ou mijo? Terá sido uma variação desta segunda, mas por solidariedade? Será que além de intelectual se tornou fino e devo apenas esperar até um dia destes começar a usar o meu papel higiénico? Talvez queira manter o nosso acordo de cavalheiros e ache que aquilo de cagar ali no canto não é para rato do seu nivel. Ou, a hipótese para mim menos apetecida e até evitada mas que saltou agora por cima de mim para esta folha de papel, será que sou, eu próprio, um rato? Todas estas hipóteses fervilham e saltitam no meu pensamento.
De qualquer das maneiras vou esperar para ver. Amanhã certamente haverá novos desenvolvimentos, nesta parte da casa onde o mundo acontece. A divisão com mais inquilinos, daqueles muito antigos que pagam rendas a preços de antigamente. São certamente inquilinos mais antigos que eu pelo que o desalojamento será complicado e rodeado de dilemas morais e éticos. Portanto, calmamente aguardo novos acontecimentos para mais informadamente tomar as decisões futuras, como mandam as leis da convivência e dos acordos de cavalheiros.
Quanto a vós caro leitor, conto com manter-vos informado assim que pertinente informação surja.

 

publicado por MAF às 20:49
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2 comentários:
De maria judite matias a 8 de Janeiro de 2010 às 00:52
Quando o André nos enviou este texto ( aos pais a alguns amigos e a mim ( sua avó ...) ao começar a lê-lo senti um arrepio de mal-estar. O meu neto vive há meses naquela situação !? É claro que eu já sabia, mas assim lido o escrito por ele era um pouco mais violento. Mas rapidamente me recompus, distanciei-me do conteúdo e mergulhei no texto.
À medida que o lia ia percebendo a sua qualidade humorística e formal. Quase transformado em rato, o rato transformado nele, jogando com metamorfoses, com metáforas e eu a pensar em Kafka ! Esplêndido!
E assim o entregámos à Augusta para o introduzir no Blog. Magistralmente executado.
Já comuniquei ao André, por mail que nunca se sabe quando o vai ler, para que nos desculpe o ter divulgado o seu texto sem sua prévia autorização e contamos com a sua tolerância para nos não culpar de dispormos tão despudoradamente da sua privacidade !

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Quando o André nos enviou este texto ( aos pais a alguns amigos e a mim ( sua avó ...) ao começar a lê-lo senti um arrepio de mal-estar. O meu neto vive há meses naquela situação !? É claro que eu já sabia, mas assim lido o escrito por ele era um pouco mais violento. Mas rapidamente me recompus, distanciei-me do conteúdo e mergulhei no texto. <BR>À medida que o lia ia percebendo a sua qualidade humorística e formal. Quase transformado em rato, o rato transformado nele, jogando com metamorfoses, com metáforas e eu a pensar em Kafka ! Esplêndido! <BR>E assim o entregámos à Augusta para o introduzir no Blog. Magistralmente executado. <BR>Já comuniquei ao André, por mail que nunca se sabe quando o vai ler, para que nos desculpe o ter divulgado o seu texto sem sua prévia autorização e contamos com a sua tolerância para nos não culpar de dispormos tão despudoradamente da sua privacidade ! <BR><BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>SALVE,ANDRÉ</A> <BR><BR>DAQUI TE SAÚDO <BR>SALVE, ANDRÉ
De maria judite matias a 8 de Janeiro de 2010 às 01:03

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