Sábado, 28 de Novembro de 2009

TÉTÉ

 

Acabo de chegar do Chapitô. A Teresa está a contar a sua vida em livro e com  isso a querer chamar a atenção para o seu Projecto, que, felizmente, tem sido mediatizado: O Chapitô. Conheço a Tété desde a Revolução de Abril, mais precisamente desde quando  foi trabalhar para a  Direcção Geral de Acção Cultural, onde esteve nos serviços de «CIRCO». E aí começou a nossa amizade. As coisas não andavam  ao seu ritmo, ao seu jeito, e,  deste modo, foi fazer o Projecto para outro lugar. Projecto que conheço desde o início, e no começo colaborei. Depois, num ou noutro momento. Cresceu, diversificou-se,  e o «Circo» tal como existe no imaginário de muitos de nós  «nem mora ali».  Tentamos enontrar-nos com alguma regularidade mas  não tanto como gostaríamos,  e deveríamos, e a ideia  é não falar de trabalho , mas acaba por ser impossível, e, inevitavelmente, terminamos sempre a falar no Projecto. Não  é possivel separar a TÉTÉ do Chapitô: é a sua vida, para o bem e para o mal. Bom, muito bom, foi encontrar pessoas que não via há muito tempo. E ter ido com o Marcelo, o Paulo, e o Zé ter conseguido aparecer. E havia ainda mais gente do Grupo Versalhes - a Judite, a Lena, o Esaú, ... . E mais colegas da actual DGARTES: a Teresa Costa, a Teresa Diegues, a Lena, a Maria José, ... .Logo ali acordámos  que podemos falar aqui do CIRCO na antiga DGAC, e do que se lhe seguiu (ou não seguiu) em termos institucionais. Para já fica a ideia, a promessa, que certamente vamos cumprir.  

 

 

 

publicado por MAF às 01:22
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Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

«SEM REDE»

 

 

  

Ultimamente vejo reforçado em mim um gosto que já vem detrás, que consiste em assistir a cursos, seminários e afins que, à partida, não estão directamente relacionados com a minha formação base nem com o exercício da minha actividade profissional. Mas isto é aparente, depois tudo sai maior. Vem isto a  propósito porque ontem estive no Seminário Internacional Partilha do Património Arquivístico Comum . E como me tem acontecido em outras iniciativas semelhantes da Direcção Geral de Arquivos (de quem por estas e outras intervenções começo a ser fã incondicional) são ditas coisas  que, não sendo especialista, me fascinam, por vezes   por razões laterais, ou porque as cruzo com  questões mais amplas, e com aquilo  que é suposto ser  o meu trabalho. Do que ontem foi dito, por exemplo:

 

- O representante de Timor Leste apontava  que o seu problema prioritário tinha a ver com o espaço onde guardar os documentos e  livrá-los dos ratos. Todos os dias a tarefa é ir ver se os roedores andam por lá e depois procurar gatos para os caçarem;

 

- Outro, o de São Tomé  e Principe, depois de muito se ter falado nas grandes possibilidades tecnológicas, dizia que eles apenas tinham um computador, o mesmo desde há dez anos;

 

- Em Timor Leste há também o problema da língua, os técnicos não sabem português suficiente que lhes permita ler os documentos;

 

- E uma nova palavra: oportunizar;

 

- E falou-se de dinossauros, e da importância de se preservar a MEMÓRIA  e de REDES. O cerne do labor daqueles profissionais.

  

 Nestas ocasiões não costumo dispersar-me, concentro-me naquelas temáticas, entro naquelas atmosferas, e a elas me dedico «de corpo e alma». Ontem, porém, não foi assim. Nos intervalos   ia lendo o livro QUATRO ENSAIOS À BOCA DE CENA - por uma política teatral e da programação (depois de já se ter verificado em Lisboa agora vai ser lançado noutros sítios) . E, de repente, chego à página onde um dos autores, Américo Rodrigues, escreve:

 

«Portugal viu-se, de repente, numa situação nova, para a qual não foi preparado. Espalhados por todo o país, florescem como cogumelos (venenosos?) Teatros e Cine-Teatros de média e grande dimensão. Em todas as capitais de distrito do país, mas também noutras cidades dinâmicas, foram erguidos Teatros, alguns dos quais belíssimas peças de arquitectura. Houve, pois, uma enorme contribuição para o desenvolvimento da ... construção civil. Obras de cimento, ferro, madeira e vidro, erigidas por todo o país, como se tivessemos entrado entretanto de repente numa era de modernidade. Como se o país, assim de supetão, se tivesse transformado radicalmente, tendo passado a acreditar na urgência da descentralização cultural. No entanto é apenas de construção que falamos. De erecção! Apesar do Ministério da Cultura se ter apressado a batizar tal afã construtor como «Rede Nacional de Teatros e Cine-Teatros», o que encontramos são obras físicas disseminadas por todo o País. O nome "Rede", no entanto, não corresponde a nenhuma prática e, muito menos a nenhuma política. A ideia inicial, de Manuel Maria Carrilho, era seguramente, a de criar uma verdadeira  Rede. No entanto, com a sua saída do Governo esse projecto terá sido abandonado. O que vemos são dezenas de obras que alteram a paisagem do país, mas que não funcionam em rede (....). Porém, os políticos  e os jornalistas continuam a falar da «Rede Nacional», como se ela existisse, num exercício que chega a raiar o escândalo. Ou seja, fingem que a "Rede" existe e isso parece bastar-lhes. O resto, a que chamamos realidade, não parece interessar-lhes. Diga-se desde já: a "Rede Nacional de Teatros e Cineteatros" não existe. (...) 

 

Estava no ambiente ideal para me lembrar do seguinte:

 

- «Desde sempre» que o Estado tem gasto verbas  em Teatros, Cineteatros e demais salas de espectáculos;

 

- Para se pensar a REDE, que de facto não existe, tem de se ir ao passado, e verificar, por exemplo,  que no primeiro Governo de António Guterres se lançou um Programa de Adpatação e Instalaçõa de Recintos Culturais - Despacho Normativo n.º 46/96 de 5 de Novembro - da responsabilidade de Rui Vieira Nery,  onde o PROJECTO CULTURAL E ARTÍSTICO era a razão de ser do equipamento físico;

 

- Em paralelo, já se estava a gizar o desenvolvimento do Programa sob o título REDE NACIONAL DE SALAS - como aparece no PIDDAC de 1997.

 

- Com a saída do Secretário de Estado, revogou-se aquele diploma, e lançou-se a que veio a ser designada por Rede de Teatros e Cineteatros de Manuel Maria Carrilho, que, no fundo, não era a negação daquele PROGRAMA, partilhava-se dos mesmos princípios, talvez num aparente outro figurino,  mas para a qual nunca foi publicada legislação que substituisse a revogada;

 

 - Entretanto o POC - Programa Operacional da Cultura -  tem a Criação de uma rede fundamental de recintos culturais, que, bem vistas as coisas, nunca se percebeu como se articulava com o passado, e como se projectava no futuro. E de que Rede se estava a falar.

 

- Por esta altura o Ministro também saíu.

 

E, como grande sobra, temos agora a realidade descrita por Américo Rodrigues.

 

Chegados aqui, a pergunta: como é que no QREN - Quadro de referência estratégico nacional - se está a equacionar tudo isto?

 

E lembrei-me também de outro detalhe: lá pelos fins dos anos noventa/ princípios deste século foi publicado um Trabalho no jornal Expresso que, se a memória não me falha, tinha como título «SEM REDE», onde se denunciava precisamente o que aqui estamos a visar. 

  

publicado por MAF às 23:34
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SOL E CHUVA

 

 

 

 Detesto o Inverno. Costumo dizer que inverno só nas séries televisivas da BBC. Que em regra são excelentes, mas em quase todas  há ambientes de inverno, e belos. E já ninguém  pode ouvir  os meus queixumes: detesto o inverno, detesto o inverno, .... Mas eu li, não sei onde, que faz bem expressar a minha incomodidade. Lá que alivia, alivia. Deve ser por isso que a JUDITE (do Grupo Versalhes) me mandou isto:

 

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.

Ambos existem, cada um como é.    

 

Alberto Caeiro

 

Mas neste caso eu prefiro Ruy Belo: É triste no Outono concluir/que era o verão a única estação.

 

 

 

publicado por MAF às 23:25
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PARTIU O MÁRIO BARRADAS

 

 

 

 

Açoreanos fizeram-nos chegar esta crónica:

 

 
Partiu o Mário Barradas

  

Encontrava-o frequentemente, quando ele vivia em Évora. Já há algum tempo, mais raramente, quando de Lisboa se deslocava para o Teatro, para os amigos. Quase sempre encontros fortuitos, de rua, sob as arcadas, na Praça do Giraldo ou em outra qualquer, mas que se transformavam de repente em conversa de amigos, sem tempo e sem pressas, mesmo que a brevidade nos assaltasse. Desfiavam nas palavras as andanças do teatro, a lúcida crítica das políticas ou não políticas culturais, os amigos comuns, um discorrer saboroso sobre as artes, o tudo e o nada da vida da cidade, os nossos Açores, sem agenda, de coração aberto. Sempre um gozo acrescido encontrar o Mário Barradas. Vou sentir-lhe a falta. Mais um hiato no coração da cidade e no meu.
Faleceu no dia 19 na sua casa em Lisboa aos 78 anos. Natural de Ponta Delgada, S. Miguel, cedo a diáspora o levou. Deixou a advocacia em Moçambique para seguir a grande vocação da sua vida, o Teatro, começando por frequentar a Escola Nacional de Teatro de Estrasburgo. Em várias épocas exerceu cargos públicos, desde o Conservatório Nacional a outras atribuições ligadas ao Ministério da Cultura. E, logo um ano após o 25 de Abril, veio pôr em prática o seu grande sonho, aquilo por que sempre lutou, a descentralização do Teatro, fundando com uma pequena equipa o Centro Cultural de Évora, antecessor do Centro Dramático de Évora (1990), ainda hoje uma instituição de relevo na cidade. Foram anos de grande entrega na produção e encenação de muitas peças teatrais, numa escola de formação de actores, encenadores, técnicos, de referência nacional, na recolha e revitalização de ricas tradições populares, como os Bonecos de Santo Aleixo, hoje embaixadores das marionetas alentejanas por todo o mundo.
Excelente actor, encenador, declamador, o Mário era o mestre e exemplo de uma total dedicação ao teatro. O Cendrev num curto comunicado a noticiar o seu falecimento, afirmava: “Em Évora, fundou o projecto que foi referência da descentralização teatral em Portugal, projecto esse responsável pela formação de várias gerações de actores e germinação de novas estruturas artísticas. Mário Barradas foi um Homem do Teatro em toda a sua dimensão de actor, encenador, pedagogo e pensador de políticas teatrais.”
Só conheci pessoalmente o Mário Barradas, depois de me fixar em Évora, há trinta anos. As nossas raízes açorianas depressa nos aproximaram e, por vezes, encontrávamo-nos em casa de amigos comuns em longos e animados serões. Foi num desses que o Mário me facilitou uma preciosa gravação feita por ele na Fajã de Baixo em 1975, e que guardo ciosamente, da deliciosa descrição feita por outro micaelense, Laudalino de Melo Ponte, de uma viagem à América e da ida a um concerto em Boston, com a quinta sinfonia de Beethoven.
Vê-lo representar era um prazer pela expressiva naturalidade, boa dicção, acerto e correcta medida nos diálogos, voz funda e cativante nos monólogos. Mas, tanto ou mais do que isso, sempre apreciei nele a desassombrada coerência no palco da vida.
 
Évora, 23 de Novembro de 2009
Artur Goulart.
 
 
 
 
 
 

 

 

publicado por MAF às 23:23
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Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

MÁRIO BARRADAS - «AS ÁRVORES MORREM DE PÉ»

 

 

No sábado passado, a 21 de Novembro, na Cassa da Achada- Centro Mário Dionísio, fez-se o lançamento do livro «Quatro Ensaios à boca de Cena - para uma política teatral e de programação». A apresentação foi feita por RUI VIEIRA NERY . O ex-Secretário de Estado da Cultura começou  por evocar o Mário Barradas, recordando, nomeadamente, o tempo em que tinham trabalhado juntos aquando do Primeiro Governo de António Guterres. A foto acima (retirada do Público de quinta-feira) é dessa altura. Foi tocante, afinal, tudo tinha a ver com tudo. A evocação:   

   

AS ÁRVORES MORREM DE PÉ

 

 Morreu o meu Amigo Mário Barradas. Segundo me contam, morreu de “morte santa”, como se costuma dizer, daquela morte súbita que desejamos àqueles que amamos e que pedimos para nós próprios. E ainda bem que foi assim, sem aquelas agonias lentas que corroem o corpo e parecem degradar a alma, mas antes como se fosse “de um tiro ou de uma faca de ponta”, como na canção de Lopes-Graça e como esperamos que possam morrer sempre os nossos heróis.
A imagem não é uma mera metáfora, porque o Mário foi realmente na sua vida um verdadeiro herói, daqueles que acreditam numa causa, que lutam por um sonho e que na sua entrega a essa luta se esquecem de si próprios e não perdem muito tempo a pensar no jogo das conveniências pessoais. Neste caso o sonho e a causa eram um ideal de fraternidade e de justiça cujo modelo concreto se pode contestar mas com uma sinceridade e uma dedicação que está acima de qualquer dúvida. E desse ideal constava também um princípio que para ele era evidente – o de que a Cultura e, em particular, o Teatro eram um bem comum, ao mesmo tempo uma fonte de felicidade e uma escola de reflexão cívica, uma presença que deveria ser constante no quotidiano dos cidadãos e que por isso mesmo o Estado democrático tinha o dever moral de garantir de forma estável e sustentada.
Conheci o Mário muito antes de ele me conhecer. Cruzámo-nos primeiro no Conservatório Nacional, onde foi um dos pilares da renovação da Escola de Teatro e onde, chegado de França, onde tinha trabalhado e estudado no Teatro Nacional de Estrasburgo, procurava trazer para Portugal um novo modelo de formação de actores e uma nova estética teatral, lúcida, empenhada, criativa, consciente do património clássico mas atenta à modernidade artística e aos desafios da cidadania. E depois reencontrei-o naquela que foi uma das minhas primeiras grandes experiências de espectador de Teatro, tinha eu dezasseis anos, pouco antes do 25 de Abril, num espectáculo extraordinário que me marcou para sempre: era A Grande Imprecação Diante da Muralha da Cidade, de Tankred Dorst, com encenação deles e com a Fernanda Alves, o Mário Jacques e o Vidente Galfo, numa produção dos Bonecreiros, um dos mais importantes grupos independentes que no início da década de 70 estavam a marcar a renovação radical da vida teatral portuguesa.
O espectáculo passava-se no auditório do Instituto Goethe, de que era então director Kurt Meyer-Clason, que na vaga Primavera marcelista aproveitava o seu estatuto de relativa “extra-territorialidade” para constituir para a minha geração um pólo insubstituível de produção artística de vanguarda e um espaço de liberdade criativa inusitada no meio das brumas da censura e da repressão. Lembro-me de que a fila para a bilheteira dava a volta ao Campo de Santana e que parecia perpassar por entre esta pequena multidão de adolescentes entre o final do Liceu e a Universidade um sentimento único de exaltação perante esta súbita brecha no muro de estupidez do regime. A peça falava da brutalidade da guerra, da violência de um Poder despótico e ilegítimo, da coragem de uma mulher que procurava o marido atrevendo-se a perguntar aos senhores da guerra a razão de ser daquela separação arbitrária. E tudo isto apresentado a uma geração que estava a crescer na ditadura, no hábito dos livros proibidos e dos filmes cortados, no medo da polícia de choque nas escolas e das prisões da PIDE, na sombra do espectro terrível da Guerra Colonial que ia consumindo os nossos irmãos e os nossos amigos mais velhos e aos nossos olhos se ia aproximando cada vez mais a passos largos. “Mas nas minhas costas sinto a cada momento o carro alado do Tempo que me persegue”, como no poema maneirista de Christopher Marvell.
Não sei se esta sensação de medo, de revolta e de esperança se pode comunicar com eficácia a um jovem da mesma idade trinta e tal anos depois, num quadro de liberdades democráticas formais adquiridas, e se este sentimento de estar ali a participar num pequeno ritual de resistência simbólica aparentemente inócuo (bem vistas as coisas, não houve ali cargas policiais, ao contrário do que tinha sucedido pouco antes, por exemplo, no Festival de Jazz de Cascais, nenhum de nós foi incomodado, voltámos todos tranquilamente para o conforto das nossas famílias da pequena-burguesia urbana, porque afinal de contas o Estado Novo tinha perigos mais sérios que o preocupassem) pode ser revisitado por quem não o viveu. Sei que o Mário ficou para sempre associado para mim a esta sensação rara de liberdade, a mesma que tínhamos quando ouvíamos meio às escondidas o Zeca Afonso cantar “que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a sonhar”
Veio o 25 de Abril e o Mário protagonizou uma experiência pioneira: formar em Évora, no velho Teatro Garcia de Resende, a primeira companhia de Teatro profissional descentralizada, à imagem dos Centros Dramáticos Regionais franceses. O projecto era conscientemente ambicioso: criar um espaço de produção teatral regular que apresentasse os clássicos e a dramaturgia contemporânea, as grandes referências do repertório internacional e a criação dramática portuguesa de todas as épocas, as linguagens cénicas tradicionais e as novas experiências performativas, e ao mesmo tempo estabelecer um centro de formação que preparasse todos os agentes necessários ao espectáculo, dos actores aos cenógrafos, dos maquinistas e carpinteiros de cena aos figurinistas e às equipas de produção. E na base desse esforço devia estar o princípio de uma contratualização estável entre o Estado e estas unidades descentralizadas de produção e formação, com vista ao objectivo comum da prestação de um serviço público cultural considerado essencial à qualidade de vida dos cidadãos.
Durante anos, o Mário circulou entre a sua presença fiel neste projecto em Évora, primeiro no Centro Cultural e depois no CENDREV, o Centro Dramático que lhe sucedeu pela fusão com o Teatro da Rainha, a cujos espectáculos eu ocasionalmente assistia quando passava pela cidade. Lembro-me em particular de um extraordinário monólogo, o Eu, Feuerbach, mais uma vez do seu querido Tankred Dorst e agora com uma encenação notável do Fernando Mora Ramos, que ele próprio protagonizava, deixando mais uma vez clara, para quem porventura já não se lembrasse, a sua estatura de grande actor. O Mário ziguezagueava entre esta luta constante e a participação, em funções várias, em sucessivas equipas de reflexão sobre a política teatral que se iam promovendo na estrutura sempre oscilante da Secretaria de Estado da Cultura e nas quais, em diferentes contextos políticos, continuou a lutar coerentemente pelo mesmo princípio de responsabilização estatal pelo serviço público na Cultura e nas Artes. Participou em comissões, assessorou governantes, redigiu manifestos e programas, viveu pequenas vitórias e grandes derrotas mas continuou sempre a acreditar que valia a pena continuar a tentar, sem entusiasmos ingénuos mas também sem derrotismos fáceis. Afinal, passe a referência a uma parábola maoista tipicamente “anos 60” que talvez não lhe agradasse, foi assim que Yunan moveu montanhas…
Poucos meses depois de eu ter chegado à Secretaria de Estado da Cultura, em 1995, morria outro dos meus amigos, José Ribeiro da Fonte, o primeiro presidente que eu tinha convidado para a Comissão Instaladora do projectado Instituto Português das Artes do Espectáculo, que devia assumir a responsabilidade do apoio do Estado ao sector privado na esfera das artes Performativas. E foi o Mário, com quem tinha entretanto estabelecido um contacto pessoal cada vez mais próximo e mais estimulante, que então convidei para lhe suceder. Durante quase dois anos trabalhámos lado a lado que nem loucos, sempre com o apoio da nossa Amiga comum Maria Augusta Fernandes, para concebermos o modelo estrutural do novo Instituto, transferirmos para este um conjunto coerente de competências que a gestão caótica de Pedro Santana Lopes tinha dispersado por uma rede avulsa e descoordenada de organismos diferentes, e ao mesmo tempo para irmos implementando no terreno um novo sistema de apoios ao Teatro, à Dança e à Música, baseado em regras claras de parceria entre o público e o privado, em compromissos programáticos plurianuais, em concursos transparentes avaliados por júris independentes e em articulações com os organismos estatais de produção artística no sector (o São Carlos, o D. Maria, o São João, o CCB). O Mário passou a ser uma presença constante no meu gabinete, um parceiro de trabalho de uma lealdade e de uma competência inexcedíveis, e simultaneamente um Mestre com quem fui aprendendo muito e pouco a pouco um Amigo que fiquei muito feliz por ter conquistado.
O Mário e eu tínhamos divergências políticas claras, mas como ambos as conhecíamos e as respeitávamos raramente falávamos delas, e quando o fazíamos era com algum pudor, com a preocupação, de parte a parte, de não gerarmos qualquer melindre, o que de resto nunca sucedia porque acabávamos sempre por descobrir mais pontos de convergência, talvez até inesperados para cada um de nós, do que de afastamento. Preferíamos, de resto, ir explorando tudo aquilo que íamos descobrindo em comum – convicções, princípios e projectos, mas também preferências, afectos, experiências artísticas e culturais e algum gosto partilhado pela sátira bem-humorada aos pequenos episódios do dia-a-dia.
Juntos fizemos muitos planos de trabalho para a acção do Ministério da Cultura na esfera das Artes do Espectáculo, e quando para ambos se tornou evidente que não íamos ter nem os meios orçamentais suficientes nem a cobertura política para cumprirmos os nossos compromissos eu saí primeiro, em Outubro de 1997, e ele, como logo nessa altura me tinha anunciado que faria também ele, poucos meses depois, apenas a tempo de deixar arrumados alguns dossiers que tinha em mão. E quando deixou o IPAE regressou, como eu próprio tinha feito, naturalmente, ao que antes fazia. Trabalhou ainda algum tempo no seu CENDREV, continuou a fazer formação teatral um pouco por todo o País e em França, onde constantemente o chamavam e lhe pediam que ficasse, e encenou em vários teatros – designadamente uma revisitação de uma obra pela qual tinha uma especial predilecção e que fora precisamente a primeira encenação sua a que eu tinha assistido, trinta e tal anos antes, ainda adolescente, a Comédia Mosqueta, de Angelo Beolco, então ainda com os Bonecreiros e de novo com Fernanda Alves, Mário Jacques e Vicente Galfo – outro espectáculo inesquecível.
O Mário foi sempre igual a si próprio, como uma árvore velha bem enraizada, a cuja sombra sabia bem acolhermo-nos. Tinha a paixão das suas convicções e podia ocasionalmente exaltar-se para as defender, mas em geral preferia um registo calmo, explicado, maiêutico. Tinha a consciência do seu valor mas não sentia a necessidade de ser ele a sublinhá-lo. Acreditava antes na força das suas ideias e nunca se escusava a propô-las e a defendê-las, mesmo em contextos institucionais onde sabia que não teria provavelmente sucesso imediato mas nos quais acreditava que era importante fazer ouvir mais uma vez a voz da razão, como uma espécie de sementeira a longo prazo.
Não sei se morreu pobre, mas sei que não morreu rico, ou pelo menos com a prosperidade material que em qualquer país ocidental um encenador e actor da sua dimensão teria sem qualquer dúvida alcançado ao fim de uma carreira distinta de longas décadas como a sua. Mas quando falávamos em termos gerais do problema de princípio implícito nessa situação, ou seja, da relação de profunda ingratidão que Portugal tem com a geração heróica que nos anos 60 e 70 lançou as bases do Novo Teatro português, lembrava-me por contraste e sem aparente azedume os tempos de combate do CENDREV onde em época de vacas magras se abriam entre todos os membros da companhia latas de sardinhas para improvisar mais uma refeição a meio de um trabalho que não tinha então quase apoios públicos. Depois disso – dizia-me ele – tudo lhe parecia próspero.
E foi justamente assim que o meu Amigo Mário Barradas viveu e morreu. Como uma árvore. Sólido e sereno. De pé.
Rui Vieira Nery
 
publicado por MAF às 10:31
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Sábado, 21 de Novembro de 2009

MARIO BARRADAS - UMA EVOCAÇÃO

 

 

Uma bela evocação que mostra o Mário que muitos conheceram: antes de mais, «gente». Aqui de Medeiros Ferreira.

publicado por MAF às 14:34
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Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

MÁRIO BARRADAS - O TEATRO ESTÁ MAIS POBRE

 

 

Emitida pela CENDREV, por esta altura, muitos estarão a receber esta triste notícia:

 

«O Cendrev vem desta forma comunicar o falecimento de Mário Barradas, ocorrido na sua casa de Lisboa, hoje dia 19 de Novembro, pela manhã.

Uma vida dedicada ao teatro. Um contributo activo e fundamental para o desenvolvimento do panorama teatral português nas últimas décadas.

Em Évora, fundou o projecto que foi referência da descentralização teatral em Portugal, projecto esse responsável pela formação de várias gerações de actores e germinação de novas estruturas artísticas.

Mário Barradas foi um Homem do Teatro em toda a sua dimensão de actor, encenador, pedagogo e pensador de políticas teatrais.

Mário Barradas não foi um homem de consensos. Polémico, agressivo nas suas posições, o seu contributo foi absolutamente determinante para a nossa formação teatral mas também humana.

O teatro perdeu um dos seus obreiros. Fica o seu grande exemplo de vitalidade e amor ao teatro.

Até sempre Mário!» 

 

O MÁRIO era um dos meus AMIGOS.  E neste momento, a única coisa que   consigo acrescentar é que foi um dos meus Mestres no entendimento do Teatro enquanto serviço público. E isto desde 1975, o que fez toda a diferença.

 

Vai para o Palácio das Galveias a partir das 17 horas.

O funeral é amanhã, às 15:00, para o Alto de S.João.  

 

 

publicado por MAF às 14:07
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Domingo, 15 de Novembro de 2009

Organizações, Cultura e Artes: actividade planeada

 

 

 

Em 2001 estive envolvida na realização de um seminário/conferência subordinado ao tema Organizações, Cultura e Artes. Um dos propósitos era demonstrar que no terreno havia casos  de excelência na perspectiva da gestão, e que a universidade ganhava em os conhecer, os reflectir, e tê-los em conta na criação de conhecimento para depois ser generalizado. A iniciativa teve lugar no ISEG. Lembrei-me disto ao receber o convite da Companhia de Teatro de Almada para assistir ao lançamento da Temporada 2009/2010.

Contrariamente ao que muitos pensam, e que muitos se empenham em fazer pensar, em Portugal há organizações no sector das Artes que «pedem  meças» a muitas do mundo dos negócios que alguns insistem em apresentar como o  único modelo de funcionamento. Veja aqui a Programação da CTA. 

 

publicado por MAF às 13:18
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Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

QUATRO ENSAIOS À BOCA DE CENA - para uma política teatral e de programação

 

Promete ser um bom  fim-de-tarde.

 

 

 

publicado por MAF às 21:23
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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

MADEIRA LUIZ - Mensagem da MINISTRA DA CULTURA

 

 

De assinalar que a Senhora Ministra da Cultura, GABRIELA CANAVILHAS, se associou à homenagem. Escreveu:

 

« Na ocasião em que se presta homenagem a Francisco da Nazaré Madeira Luiz e, na impossibilidade de estar presente em tão atempada e justa cerimónia, venho manifestar publicamente o meu apreço por este antigo funcionário da Secretaria de Estado da Cultura e activo animador cultural, através de algumas palavras escritas.

Palavras que só podem ser  de agradecimento pelo trabalho que ajudou a erguer e em que participou de uma forma tão activa, desinteressda e profunda.(...)». Mais 

publicado por MAF às 20:37
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