Domingo, 14 de Fevereiro de 2010

CULTURA E ORÇAMENTO

Ontem no Jornal Público foi publicado um artigo de opinião de Fernando Mora Ramos sobre o Orçamento do Estado para a Cultura (Pode ver o documento do OE aqui, e procure a Cultura na pg. 320).  O artigo com os agradecimentos ao autor:

 

 Cultura e Orçamento

  

José Sócrates assumiu publicamente que, se cometera um erro na legislatura anterior, fora o pouco apoio à cultura. Fazer a autocrítica foi surpresa num político cujo estilo é sempre afirmativo – adoçou a imagem nas eleições, José Gil explicou-o magistralmente no El País – e maior surpresa foi, comparando com o investimento na ciência, afirmar a necessidade do mesmo na cultura. Tivemos aí a medida do patamar financeiro que poderia vir a ser assumido como desígnio específico de um orçamento para a cultura em corte com o período do erro. Uma sensibilidade nascera com a experiência dos primeiros quatro anos. A cultura caminharia para a cidadania plena, iniciaria um calvário positivo de reconhecimento e rectificação regeneradora: as instituições culturais públicas estão descapitalizadas, sub-orçamentadas, esvaziadas de pessoas (equipas) e projectos, e a outra realidade, a da criação cultural de iniciativa civil não estatal, de inscrição constitucional para os seus protagonistas, resistindo, não vive para criar vida, tentando manter à tona modernamente um perfil de país que não entre definitivamente na lógica de país empresa, como se apenas tivéssemos pela frente dívida pública, desemprego, de um lado e do outro, salvadores da pátria com milagres de gestão e panaceia terapêutica nas grandes obras públicas, sempre infra-estruturais e nunca corajosamente programadas como a tal qualificação dos portugueses que, aliás, já não faz discurso. Da memória, da pátria, não se fala, nem da criação cultural como substância imaterial identitária e livre que nos espelhe o porvir, e da língua fala-se para dizer que é o grande negócio, ovo de Colombo – quem o diz não o explica bem ao Primeiro-Ministro, pois seria argumento mais repetido – ao lado dessa grande descoberta que são as indústrias criativas, do rato Mickey falado em português aos Lusíadas sem os cantos todos em super genial resumo para SMS.
Pegamos nas páginas do Orçamento, descarregando o PDF do Público (da 318 à 323) e não acreditamos. Não se trata apenas da negação da promessa de um aumento em corte significativo com o erro anterior – estamos agora nos 0,4%, ainda muito longe do melhor Carrilho (motivo para a vitalidade da sua condição referente), um para trás que continua velha nova meta. O que surpreende pela negativa é o descosido total de programa e argumentos, numa espécie de manta de retalhos cosida à pressa para acabar a escrita. Para além de se remeter para as últimas páginas – não é acaso, é posição – vem escrito num português técnico - deve ser o caso – mal amanhado, repetem-se os prevê-se e os pretende-se, na assunção inconsciente e reveladora de que é tudo vago e talvez venha a acontecer. Mas estranho é, ao falar das prioridades, língua, património e artes e indústrias criativas, que dizem ser três eixos (as artes são para acabar, subsidiárias das indústrias que, em Espanha, estão sob a alçada do Ministério da Indústria), proporem a uniformização do português como defesa da unidade da língua. Enfim lá vai a língua vestir uma farda e partir para um “novo Ultramar”. Da cultura contemporânea, dos que a fazem, dos artistas vivos, não se fala como fenómeno fundamental, não existe no orçamento para além de umas coisas vagas sobre fruição e formação. O Museu dos Coches e o CCB também não. Lá vamos …         

 

 

publicado por MAF às 12:19
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

.Outubro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. EXPOSIÇÃO | Cartazes de ...

. DIA INTERNACIONAL DAS MUL...

. Amas, Flores e Velas

. P A R I S

. EM MEMÓRIA DE VICTOR BELÉ...

. NUM DISCURSO DE MIA COUTO...

. «ERNESTO»

. CAPITAIS EUROPEIAS DA CUL...

. NO 1.º DE MAIO | «Insulta...

. 25 ABRIL 2015

.arquivos

. Outubro 2016

. Março 2016

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds