Terça-feira, 30 de Março de 2010

CARTAZES PARA O COLECCIONADOR DE CARTAZES

 

                                              

As dedicatórias aqui  

 

 Para a história do CARTAZ  em Portugal uma «estória»  por protagonistas

 

«Mesmo para quem já coleccionou muitos milhares, um cartaz nunca é demais

  Faltava pouco mais de uma semana para o dia 5 de Novembro de 2009, data em que o I Congresso Internacional de Animação Sociocultural na Terceira Idade ia homenagear o Madeira Luíz, na cidade de Chaves.

 Foi então que os organizadores do Congresso e da Homenagem, os também animadores socioculturais, doutor Marcelino Sousa Lopes e Dr. José Dantas Ferreira, telefonaram para que colhesse, junto de amigos, sugestões de prenda para assinalar a ocasião.

 Ainda na região de Lisboa, perguntei, por aqui e por acolá, a ver se surgia algum alvitre. Ninguém avançou algo de significativamente relevante.

 Foi já em cima da data, e em desespero de imaginação, que lhes lancei a réplica de pedirem a todos os inscritos no Congresso para trazerem, das suas instituições e de entre as múltiplas actividades socioculturais a que estão ligados, um cartaz para oferecer ao homenageado, pessoa de que quase todos tinham ouvido falar, mas que poucos conheciam pessoalmente.

 A intenção seria ofertarem algo que tivesse a ver com uma escolha pessoal e que, ao mesmo tempo, assumisse o carácter simbólico do mundo da animação e adjacências e que destacasse uma das dimensões mais intemporais da intervenção cultural do Madeira.

 Deste modo, valorizava-se o esforço de alguém que dedicou boa parte da sua vida a recolher mais de 250 mil cartazes e a deixá-los disponíveis, para consulta e estudo, em mais de uma dúzia de instituições públicas espalhadas de Norte a Sul do País.

 Cada cartaz representaria o reconhecimento pelo esforço laborioso de procurar, reunir, proceder ao tratamento sistemático e assegurar as condições de público acesso a esse manancial de informação, enquanto suporte de memória colectiva.

 Embora acolhida de imediato, a iniciativa apanhou muitos dos participantes já em cima da hora de partida e, por isso, sem alternativa de escolha. Aconteceu até que um bom punhado de inscritos só à chegada ao Congresso é que dela tomou conhecimento.

  Mesmo assim, o gesto de ofertar simples cartazes ao “animador” que, ao longo da vida, lhes dedicou muito do seu engenho e persistência, salvando-os de uma morte anódina, constituiu um momento relevante, até porque juntou uma amostra diversificada das actividades culturais, a que, no presente, os animadores se encontram ligados directa ou indirectamente.

 Acresce que permitiu, ainda, algum exercício de criatividade, apanágio da animação, além de introduzir uma perspectiva pedagógica imprevista.

 Foi o caso de um grupo de participantes vindos de Avis que, só à chegada, na recepção, souberam da proposta, quando lhes perguntaram onde estava o cartaz. Explicaram que não lhes chegara qualquer informação, certamente que o aviso já não os tinha apanhado em casa, e, se porventura viera por e-mail, há uma semana que não lhe acediam. Mas logo foram dizendo que haveriam de se desenrascar.

 Nessa mesma noite, entre conversa fiada, debate e copo, descobriram, num bar da cidade, profusa e apelativa publicidade ao CINZANO/MARTINI. Não demoraram nada a convencer o proprietário a ceder-lhes uma colecção daqueles cartazes. Por uma vez, o dito aperitivo de puxa conversa, e porque não tertúlia de ocasião, ganhou foros de acto cultural.

 Foi também o que aconteceu com o animador Marcelino Lopes. Chegado o momento de sair de casa, com o tempo a correr para a hora de abertura do Congresso, não havia modo de encontrar o cartaz escolhido. Não esteve para perder tempo. Foi à parede da sala de estar e retirou de lá encaixilhado um cartaz antigo representativo das primeiras actividades culturais em que se empenhara, há mais de três décadas, em terras de transmontanas.

 Com um casal aconteceu que os cartazes que tinham pensado levar, ficaram esquecidos na região de Lisboa. Já a caminho de Chaves, por alturas de Tondela, lembraram-se de bater à porta da ACERT - Trigo Limpo. Conseguiram levar uma pequena colecção de mais de duas dezenas, alguns deles da fase inicial do grupo fundado por José Rui e que hoje tem no Pompeu o continuador daquele projecto de excelência. Também foram à Câmara e ao Turismo e mais uns tantos seguiram viagem. 

 O próprio Professor Américo Nunes Peres, que, em nome do Congresso e em representação da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, presidiu à Cerimónia de Homenagem, teve o cuidado de trazer de casa um cartaz que guardara durante décadas, e que simbolizava o seu envolvimento em fase precursora da animação cultural e educativa.

 Mas, a surpresa chegou com uma acção simbólica inesperada, ocorrida à vista de todos durante as sessões do Congresso, o qual decorreu, ao longo dos três dias, no Auditório da Câmara Municipal, à cunha, com uma presença maioritariamente jovem, sempre atenta, pontual e interventiva.

 Na verdade, aconteceu que, à chegada, no acto de cada participante confirmar a presença, recolher pasta com a documentação do Congresso e pedir esclarecimentos sobre actividades extras, incluindo a inscrição para o jantar de Homenagem, lá foi perguntando onde poderia deixar o cartaz que trouxera, como quem se despacha de uma incumbência.

 Ao fim da manhã, num lugar improvisado, quase que a magote, lá se foram juntando os muitos rolinhos de cartazes.

 Alertado, o Madeira Luíz procurou modo de inventar lugar condigno, cuidando que ficassem resguardados, até uma ocasião em que lhes prestaria um primeiro devoto olhar. Ele e muitos outros curiosos.

 Com efeito, não foi preciso esperar muito tempo para, no palco do Congresso, por obra e graça da organização, aparecer um destes porta desenhos enorme, usados em arquitectura, design e belas artes, e, de lado, um monte de rolinhos e envelopes de vários tamanhos, com sinais visíveis das diferentes amolgadelas dos quilómetros e peripécias da viagem.

 Fora o Madeira Luíz, ele mesmo, que se apropriara da incumbência. Agora um, logo outros, fora-os trazendo para um espaço frontal do palco, quase resvés com a primeira fiada de participantes.

 Depois, agarrou uma cadeira trazida para os que estavam de pé ou sentados nos degraus, sentou-se de esguelha para a mesa que presidia às sessões, e, sem deixar de espreitar a atenção dos participantes, estendeu para aquele amontoado dois braços como quem recebe um amigo.

Cuidadosamente, foi abrindo o primeiro, enrolando de novo, mas agora às avessas, para afagar o jeito ganho, por diversas vezes, até o deixar bem liso, com a ajuda das mãos espalmadas, depois com a polpa dos polegares, até àquele deslizar da unha maior para o desvincar definitivo.

 Os fios e fitas eram guardados paralelos, depois de desatados os nós, pois, nunca se sabe, sempre fazem jeito.

 Terminada a tarefa relativa a um dos cartazes, mecanicamente os dedos começavam a abrir o seguinte, até terminar em mais um cartaz liso e escorreito a pedir companhia aos demais.

 Então, durante um compasso de espera, os olhos observavam os montinhos agrupados por tamanhos, e, como uma premonição, lá lhe encontrava o poiso provisório até à chegada ao destino prometido no centro documental e museológico da universidade de Aveiro. Para este centro não só foi inspirador e paladino, como tem contribuído com o seu próprio espólio, incluindo as suas colecções de cerâmica e vidro, sem esquecer a variada recolha documental acumulada de várias décadas e diferentes ofícios, militâncias e afectos. A memória também se faz de manifestos, programas, estatutos, actas e tanta coisa mais.

 Pode acontecer que a lição tenha tido mais impacto do que eficácia. Mas não resta dúvida de que a mensagem visual ficará para sempre. Um gesto profético, que cada um pode traduzir no acto de organizar um arquivo, na preservação dos documentos respeitantes a um projecto, no registo escorreito das actividades desenvolvidas, juntando-lhes as peças que identifiquem quem participou e qual o impacto, lembrando que o processo comunicacional se alimenta do relatório e contas, mas também das imagens que ficam para a posteridade e valem duas mãos cheias de palavras.

 Aparentemente, eram apenas mais umas centenas de cartazes para quem passou a vida a procurá-los nos sótãos das associações, cooperativas, centros culturais, grupos de teatro, cinemas, galerias, sindicatos e instituições públicas e particulares, em prateleiras desengonçadas, no vão de escadas, na última gaveta de secretárias carunchosas, ou até no caixote do lixo que alguém esqueceu quando a “sociedade recreativa e cultural” fechou para não voltar a ser reactivada.

 Mas a verdade é que aqueles cartazes, como tantos que se amarrotam e rasgam todos os dias em lixeiras, transportam a memória potencial de quem acreditou, resistiu, foi à luta, deu a conhecer, ou, parafraseando a mnemónica latina, passou o aviso do quê, quem, onde, com que meios, quando, como, porquê e para quê. Usando muros, placards, paredes, o correio, o amigo, o cúmplice, o grupo levou mais longe e mais além o acto sociocultural, ou cultural-político, de estar vivo e de o anunciar.

 Mesmo para quem já sentiu a tinta, a textura, as cores, a mensagem, o design e a inventiva dos formatos de centenas de milhar, um cartaz nunca é demais.

 Queluz, 5 de Março de 2010.

 Esaú Dinis, com a colaboração de Helena Mendes»

publicado por MAF às 20:42
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