Quarta-feira, 7 de Abril de 2010

«SÃO CARLOS: O RESTO ESTÁ POR FAZER»

 

No Diário de Notícias de hoje (2010-04-07) foi publicado o artigo de opinião «São Carlos: o resto está por fazer» de Rui Veira Nery de onde tirámos o seguinte excerto:

 

«(...)Dito isto seria profundamente errado centrar demasiado na pessoa do director artístico do teatro a situação de crise prolongada que nele se vive. Demonizar Christoph Damman e convertê-lo no bode expiatório exclusivo do descalabro reinante no domínio da ópera em Portugal é injusto porque não toma em consideração os problemas estruturais de fundo que provocaram a crise actual e que se têm vindo a agravar ao longo da última década.  
 Santificar Paolo Pinamonti e esperar dele, na hipótese - a meu ver claramente desejável - do seu regresso, resultados milagrosos imediatos que invertam subitamente esta situação é igualmente injusto porquê coloca de forma irrealista nos seus ombros uma responsabilidade a que de modo nenhum teria meios de corresponder em pleno. O problema do São Carlos é também de direcção artística, e ainda bem que temos uma boa alternativa à mão para o resolver a esse nível, mas é sobretudo de ordem política, orçamental e administrativa.  
 É um problema de ordem política porque o São Carlos e a ópera em Portugal não podem ser pensados isoladamente de uma estratégia de desenvolvimento global e sustentado para o País que incorpore as artes e a cultura como uma vertente estruturante. O São Carlos só se justifica se for capaz de prestar um serviço público reconhecidamente eficaz no seu âmbito de intervenção, articulado com o tecido cultural português, no seu todo, e agindo no seio deste como uma referência de qualidade e modernidade, mas também como um motor de renovação estética, de qualificação dos profissionais do sector, de tirocínio de talentos, de formação de públicos.  
 É um problema de ordem orçamental porque essa missão politico-cultural que lhe compete não pode ser exercida de forma minimamente efectiva sem um acréscimo dos seus meios financeiros actuais. Não se trata aqui da miragem utópica dos velhos habitués do São Carlos que sonhariam com um teatro que fosse de novo o ponto de passagem (como já o foi) das grandes vozes líricas, dos grandes maestros e dos grandes encenadores do panorama operático internacional. Programar nessa escala, pelo menos de modo sistemático, implicaria meios de que de modo algum seria realista, na conjuntura actual, esperar dispor. Mas os custos de estrutura do São Carlos-orquestra, coro, equipa técnica, frente de casa - são demasiado elevados para que depois não haja recursos orçamentais suficientes para pôr em pleno o ritmo de produção dessa máquina excelente que já está no terreno. Dotar o teatro de uma verba ridícula como aquela de que actualmente dispõe para programação não significa poupar dinheiro ao Estado, significa estar a desperdiçar o investimento gigantesco que este ja faz na estrutura permanente do teatro, quer ele abra as portas ao público quer não.  
 Os poucos espectáculos que o São Carlos hoje oferece por temporada, sendo paupérrimos nos seus custos imediatos de produção, são aberrantemente caros quando se toma em consideração a amortização do custo total anual da instituição em cada produção. Aquilo que pareceria uma economia representa assim, afinal, um trágico desperdício. E o reforço orçamental necessário para alterar esta proporção seria, em termos macro-orçamentais, irrelevante face ao investimento de fundo já efectuado.  (...)».

 

Pode ler o artigo completo aqui. Ou neste endereço do DN.

E que comentários é que o artigo nos merece? Desde logo, que o diagnóstico nos parece extensível a muitas outras situações na esfera das artes do espectáculo e, nomeadamente, quanto às designadas Unidades de Produção do Estado. Por outro lado, pensamos que se justificava haver uma fundamentação pública que mostrasse  as razões  que levaram à opção orgânica "EPE" - Entidade Pública Empresarial - tendo em conta, em especial,  que a grande percentagem do financiamento provem do Orçamento de Estado. E se as Estruturas não determinam o bom desempenho de uma organização de qualquer forma podem favorecê-lo ou não. Para terminar, por agora, aqui está uma boa matéria para debate. 

 

publicado por MAF às 19:34
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